Secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, e o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, em Bruxelas, 23 de março de 2021 | AFP

O secretário de Estado americano, Antony Blinken, iniciou nesta terça-feira (23) uma série de contatos com a Otan e os ministros das Relações Exteriores da aliança militar para reconstruir laços e discutir a eventual retirada das tropas aliadas no Afeganistão.

“Ainda não definimos nossa posição no Afeganistão. Venho compartilhar alguns dos nossos pensamentos e consultar os aliados”, disse Blinken em entrevista coletiva ao chegar à sede da Otan em Bruxelas.

O governo de Donald Trump acordou com os talibãs a retirada das tropas sob o comando da Otan no Afeganistão em 1º de maio. A data está se aproximando, e os aliados ainda não definiram o que vai acontecer.

Blinken recordou que existe “um processo de revisão em curso” nos Estados Unidos sobre como proceder no Afeganistão.

“Fomos [para o Afeganistão] juntos, nos adaptamos juntos e vamos nos retirar juntos”, garantiu, lembrando que o próprio presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, considerou na semana passada que seria difícil cumprir a data de 1º de maio.

Qualquer decisão dos Estados Unidos, disse ele, “será informada pelo pensamento dos aliados da Otan”.

Os aliados, acrescentou, estão comprometidos com a ideia de salvaguardar suas tropas e “garantir que o Afeganistão nunca mais seja um santuário para terroristas”.

“Hoje estamos tão comprometidos com o primeiro desses objetivos quanto com o segundo”, alertou.

De acordo com fontes diplomáticas, a Otan estaria disposta a estender sua presença no Afeganistão além de 1º de maio, mas espera que Washington esclareça sua posição.

Blinken enviou uma mensagem clara da reaproximação de Washington com a Otan, após as evidentes tensões vividas durante o governo Trump.

Oportunidade de consultas

Antony Blinken e Jens Stoltenberg | AFP

O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, destacou, por sua vez, a “excelente oportunidade” para os ministros das Relações Exteriores da Aliança Atlântica de poderem “se consultar sobre o caminho a seguir no Afeganistão”.

“Temos de nos consultar, coordenar e tomar decisões em conjunto”, afirmou o responsável, e a reunião que começa nesta terça-feira “é uma parte muito importante desse processo”.

Stoltenberg repetiu a frase de Blinken sobre a ida e a retirada do Afeganistão juntos, mas ao final da frase acrescentou: “quando chegar a hora certa”.

“Também precisamos envolver todos os atores daquela região”, afirmou.

A Otan está no Afeganistão há quase 20 anos, mas reduziu sua presença de 130.000 soldados de 36 países envolvidos em operações de combate, para 9.600 hoje, incluindo 2.500 americanos e 1.600 alemães, encarregados de treinar as forças afegãs.

O Afeganistão é o primeiro item da pauta da reunião de chanceleres marcada para terça e quarta-feira.

Os chanceleres da aliança militar têm várias outras questões difíceis na agenda, notadamente o comportamento da Turquia, um aliado e membro da Otan que fez compras militares significativas da Rússia.

“A Turquia complica as discussões sobre a Rússia. É uma espécie de elefante na sala”, disse um diplomata europeu.

Aparentemente tranquilizados pelo desejo de Biden de encerrar as decisões unilaterais dos Estados Unidos, os europeus esperam “previsibilidade, confiabilidade e consulta”, segundo a mesma fonte.

O diplomata acrescentou, porém, que o novo presidente dos Estados Unidos “é um pouco mais brando” do que Trump, “mas seus objetivos permanecem os mesmos, especialmente ao dividir os gastos com defesa. Não há mudanças substanciais”.

Os aliados se comprometeram a dedicar 2% de seu PIB aos gastos com defesa até 2024. Onze países alcançaram essa meta em 2020.

AFP