Rio de Janeiro (AFP) – A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado recomendou nesta quarta-feira (20) acusar o presidente Jair Bolsonaro por vários delitos, entre eles “crimes contra a humanidade”, por sua gestão da pandemia, enquanto o mandatário garante não ter “culpa de absolutamente nada”. A CPI analisou durante seis meses as ações e omissões do governo durante a pandemia que já deixou mais de 600 mil mortos no Brasil, o segundo país com mais óbitos de covid no mundo depois dos Estados Unidos. O relator, o senador Renan Calheiros (MDB/AL), apresentou hoje o relatório final, no qual conclui que o governo expôs “deliberadamente a população ao risco concreto de infecção em massa”, o que o levou a pedir o indiciamento de Bolsonaro e outras 67 pessoas e empresas, como diversos ministros e ex-ministros, e três dos filhos do presidente.  Entre os delitos atribuídos ao presidente estão “crime contra a humanidade” e “prevaricação”. Já os crimes de “homicídio” e “genocídio de indígenas” foram retirados no último minuto devido a dissensos no âmbito da CPI.A Comissão não tem poder de fazer denúncias formais, mas seu relatório será enviado a diferentes órgãos que podem prosseguir com as investigações e apresentar acusações, como a Procuradoria Geral da República, o Tribunal de Contas da União ou uma corte internacional. Além de “atraso deliberado” na compra de vacinas, “se comprovou a existência de um gabinete paralelo, a intenção de imunizar a população por meio do contágio natural, se deu prioridade a um tratamento precoce sem base científica e foram desestimuladas as medidas não farmacológicas”, como uso de máscara e distanciamento, afirma o relatório. Tratou-se de uma “estratégia macabra”, acrescentou Calheiros. Se tivessem sido adotadas medidas para conter a circulação do vírus, “120 mil vidas poderiam ter sido salvas até o final de março de 2021”. Bolsonaro é “o responsável principal pelos erros cometidos pelo governo federal”, concluiu Renan Calheiros no relatório, que será votado pelos 11 integrantes da CPI na próxima semana, quando se espera que o texto seja aprovado com algumas modificações.- ‘Não temos culpa de nada’ -Bolsonaro, que sempre tachou a CPI de “palhaçada”, por sua vez, se eximiu de qualquer responsabilidade. “Nós sabemos que não temos culpa de absolutamente nada. Sabemos que fizemos a coisa certa desde o primeiro momento”, disse o presidente durante um ato oficial no estado do Ceará, horas após a apresentação do relatório. Desde o início da emergência sanitária, Bolsonaro minimizou a pandemia, criticou as medidas de distanciamento, o uso de máscaras e defendeu medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid, como a hidroxicloroquina. Mais de um ano depois de ter contraído o vírus, o presidente afirma que não se vacinará e continua defendendo esses medicamentos, que são contraindicados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).  Apesar de o relatório final da CPI ter a possibilidade de trazer consequências políticas e judiciais graves para Bolsonaro, analistas coincidem em dizer que o seu impacto no curto prazo será apenas simbólico, já que Bolsonaro ainda tem apoio suficiente no Congresso para evitar um processo de impeachment, e consideram pouco provável que o atual procurador-geral da República, Augusto Aras, resolva apresentar acusações formais contra o chefe de Estado. A popularidade de Bolsonaro está em seu nível mais baixo desde que ele assumiu a Presidência, e as pesquisas para o pleito de 2022 o colocam atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. – Tramas impactantes -No seu início, a CPI se debruçou sobre as responsabilidades pelos pacientes mortos em Manaus por falta de oxigênio, mas depois se aprofundou em irregularidades como a demora do governo para comprar vacinas, e sobre a existência de um “gabinete paralelo” de médicos e empresários defensores de medicamentos sem eficácia comprovada que assessorava Bolsonaro.Contudo, no transcurso da CPI, foram identificados novos esquemas, entre eles supostas irregularidades na compra – que não foi efetivada – da vacina indiana Covaxin, que rendeu a Bolsonaro uma investigação judicial por “prevaricação”, ao não ter denunciado o caso, do qual estaria teoricamente inteirado, à Polícia Federal.E também os vínculos entre o governo e operadoras privadas de planos de saúde na promoção de medicamentos ineficazes para o “tratamento precoce” do coronavírus. Uma dessas operadoras é a Prevent Senior, que tem como público alvo pessoas da terceira idade e é acusada de aplicar tratamentos experimentais, sem o consentimento dos pacientes, e de maquiar o número de mortes por coronavírus, em um escândalo que abalou o país.