Manifestantes contra o golpe de Estado em Mianmar fogem do gás lacrimogêneo usado pelas forças de segurança na cidade de Mandalay | AFP

Vários habitantes da cidade birmanesa de Yangon fugiram nesta terça-feira (16) de um distrito que se tornou cenário de confrontos nos últimos dias, enquanto as famílias dos manifestantes do movimento pró-democracia se preparavam para enterrar seus mortos após o “banho de sangue” das forças de segurança.

Mais de 180 civis morreram desde o golpe de Estado de 1º de fevereiro contra Aung San Suu Kyi, segundo a Associação de Ajuda aos Presos Políticos (AAPP). O balanço aumentou consideravelmente nos últimos três dias.

A junta parece mais decidida do que nunca a reprimir os protestos, apesar das condenações internacionais.

“Em Mianmar, os militares tentam anular os resultados de eleições democráticas e reprimem brutalmente os manifestantes pacíficos”, afirmou nesta terça-feira o secretário de Estado americano, Antony Blinken, em Tóquio.

Em Hlaing Tharyar, um subúrbio industrial de Yangon, a capital econômica do país, onde vivem trabalhadores pobres que são empregados de fábricas têxteis, muitas pessoas abandonaram a área às pressas nesta terça-feira.

Alguns colocaram seus pertences e animais de estimação em caminhões, tuk-tuks, ou veículos pequenos. “Era possível observar pessoas nas estradas até onde a vista alcança, em fuga para retornar a suas regiões de origem”, afirmou um meio de comunicação local.

No domingo, a junta militar declarou lei marcial nesta área do subúrbio depois que grupos incendiaram várias fábricas chinesas. As forças de segurança abriram fogo e mataram dezenas de manifestantes.

Todas as pessoas detidas no distrito e nos outros cinco distritos de Yangon que estão sob lei marcial correm o risco de serem processadas em um tribunal militar, o que pode resultar em pena mínima de três anos de trabalhos forçados.

“Mártires”

Mianmar também se preparava nesta terça-feira para sepultar os mortos.

Ao menos 20 manifestantes morreram na segunda-feira, segundo a AAPP. O domingo foi o dia mais violento da repressão, com 74 civis mortos por tiros. A junta militar anunciou o óbito de um policial.

“Muitos adolescentes foram assassinados, e o uso de munição real está se intensificando, inclusive durante a noite”, afirmou a AAPP.

O Exército não respondeu aos pedidos de informação da AFP.

Os funerais de vários manifestantes estavam programados para esta terça-feira em todo país, inclusive em Yangon.

Durante a noite, foram organizadas vigílias em várias cidades.

“R.I.P.” (Descanse em Paz), escreveram com velas os moradores de Mandalay, a segunda maior cidade do país. “Apoiamos nossos mártires”, “Lutaremos até o fim”, afirmaram algumas mensagens nas redes sociais.

Pequenos grupos dispersos de manifestantes se concentraram nesta terça-feira em Yangon, mas em número reduzido pelo temor de represálias.

Desde domingo a junta militar bloqueia as conexões de Internet móvel, o que dificulta a coordenação dos manifestantes.

A violência dos últimos dias provocou uma nova onda de protestos internacionais.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, por meio de seu porta-voz Stephane Dujarric, denunciou um “banho de sangue”. Também pediu à comunidade internacional, “incluindo os atores regionais, que se unam em solidariedade com o povo birmanês e suas aspirações democráticas”.

Após a violência de domingo, quando foram atacadas 30 fábricas chinesas, segundo a imprensa estatal, Pequim afirmou que estava “muita preocupada” com a segurança de seus cidadãos em Mianmar.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Zhao Lijian, pediu às autoridades a adoção de medidas para “evitar resolutamente a repetição dos incidentes”.

O ressentimento contra a China aumentou nas últimas semanas em Mianmar, porque muitas pessoas consideram que sua postura contra os generais birmaneses não é suficientemente forte.

2.200 detenções

O Exército também responde aos protestos na frente judicial.

De acordo com a AAPP, desde 1º de fevereiro quase 2.200 pessoas foram detidas, incluindo Aung San Suu Kyi, de 75 anos, que permanece incomunicável, assim como políticos, autoridades locais, ativistas, artistas e funcionários públicos em greve.

A ex-chefe de fato do governo civil deveria ter participado de uma audiência por videoconferência na segunda-feira, mas a sessão foi adiada por falta de acesso a Internet.

A vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 1991 foi acusada por quatro infrações. Também foi acusada de corrupção porque, segundo o regime, teria recebido 600.000 dólares em subornos e mais de 11 quilos de ouro.

A próxima audiência está prevista para 24 de março.

AFP