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Moda: Quais são as Marcas do impacto social causado pela indústria têxtil?

Segundo Zygmunt Bauman “vivemos tempos líquidos, onde nada é para durar”.  Essa é uma frase do filósofo Polonês, que pode ser utilizada como uma contribuição para o mundo têxtil, que nos últimos anos vêm se deparado com o desenfreado consumismo em torno de produção para alimentar os desejos da população e obter lucros insaciáveis com o ramo da indústria têxtil. 

Além disso, ocasiona inúmeras irregularidades sobre normas e direitos dos trabalhadores ao qual os mesmos são expostos a jornadas exorbitantes e exaustivas dentro do direito do trabalho.

Como e quando se tornou ainda mais relevante a produção da Indústria Têxtil?

Costurar, bordar, cortar e tingir são trabalhos nobres, que requerem habilidades manuais, saberes tradicionais e minuciosos. Mas em qual momento esse tipo de serviço passou a ser explorado?

A indústria têxtil foi um dos setores líderes durante a Revolução Industrial, com uma representatividade feminina forte no trabalho. No entanto, a chegada das máquinas às fábricas não suavizou a maneira como os trabalhadores eram tratados. 

Por volta de 1850, na Inglaterra, houve o surgimento do termo sweatshop, fábricas têxteis ou confecções caracterizadas por oferecerem trabalhos precários, jornadas exaustivas, baixos pagamentos e ambientes nocivos.

As sweatshops logo ampliaram-se mundialmente, em cidades como Nova York, por exemplo, empregando principalmente mulheres, migrantes do meio rural e imigrantes.

Como previsto, essa maratona de alta produção à custa do suor humano não resultou em algo positivo. No dia 25 de março de 1911, uma tragédia marcou a história: um grande incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist, em Nova York, causou a morte de mais de 100 mulheres.O acidente instigou as mulheres a lutarem pela criação de um sindicato trabalhista para garantirem seus direitos e segurança.

Contudo, esse modelo de produção “mais por menos” ainda foi adotado por muitos países, e deslocado, principalmente, para países asiáticos onde as leis são mais precárias. Consequentemente, acidentes na indústria da moda continuam acontecendo, inclusive em  fábricas de grandes marcas globais, e também condições análogas ao trabalho escravo ainda perduram na vida de muitas pessoas.

Marcas e impacto social: Você se lembra?

ANIMALE

 Em setembro de 2017, auditores fiscais do trabalho flagraram, imigrantes bolivianos que recebiam uma média de R$ 5 por peça que eram vendidas por até R$ 698 em loja. A marca Animale, que indica “luxo e sofisticação” como suas “palavras de ordem”, tem mais de 80 estabelecimentos no país, muitos em shoppings de alto padrão. Os costureiros subcontratados eram submetidos a uma jornada de doze horas por dia no mesmo local onde dormiam, dividindo o espaço com baratas e instalações elétricas que ofereciam risco de incêndio.

ZARA 

 Equipes de fiscalização trabalhista flagraram, pela terceira vez, em agosto de 2011, trabalhadores estrangeiros submetidos a condições análogas à escravidão produzindo peças de roupa para a Zara, da Inditex. A equipe apontou contratações ilegais, trabalho infantil, condições degradantes, jornadas de até 16h por dia, cobrança e desconto irregular de dívidas dos salários e proibição de deixar o local de trabalho. Um dos trabalhadores contou que “A autorização do dono da oficina para sair da casa era concedida apenas em casos urgentes”. A investigação se iniciou em outra fiscalização, realizada em maio do mesmo ano. Na ocasião, 52 trabalhadores foram encontrados em condições humilhantes.

M-Officer 

 Em novembro de 2013, uma ação resgatou duas pessoas produzindo peças da M.Officer em condições análogas à escravidão em uma confecção em São Paulo.  Casados, os trabalhadores eram bolivianos e viviam com seus dois filhos no local. A casa  não possuía condições de higiene e não tinha local para alimentação,  o que obrigava a família a comer sobre a cama, a mesma onde dormiam. Os trabalhadores pagavam todas as despesas da casa no valor descontado do salário. Em maio de 2014, outra ação libertou seis pessoas de oficina que também produziam para a marca. Todos eram imigrantes bolivianos e estavam submetidos a condições precárias e jornadas exaustivas. O grupo trabalhava em uma sala apertada sem ventilação, um local com fios expostos ao lado de pilhas de tecido e muita sujeira. 

RENNER 

A Renner foi autuada por autoridades trabalhistas pela exploração de 37 costureiros bolivianos em regime de escravidão contemporânea. O fato ocorreu em novembro de 2014, em uma oficina de costura terceirizada localizada na periferia de São Paulo. Os trabalhadores viviam sob condições degradantes em alojamentos, cumpriam jornadas exaustivas e muitos estavam submetidos à servidão por dívida. Essas condições constam no artigo 149 do Código Penal Brasileiro como suficientes – mesmo que isoladas – para se configurar o crime de utilização de trabalho escravo. A fiscalização responsabilizou a Renner também por aliciamento e tráfico de pessoas.

Tem solução? 

Como contraponto ao cenário de exploração, o Fashion Revolution surgiu alinhado à uma crescente demanda por marcas e produtos mais transparentes, éticos e sustentáveis.

O movimento, que conduz um trabalho intenso, a disseminação de sua mensagem principal, o questionamento e valorização de quem produz nossas roupas, se espalhou por mais de 100 países, ganhando força e destaque, inclusive no Brasil. 

Então, a partir de agora, você conhece quem faz suas roupas? Sabe o que tem por trás? O consumo consciente é o futuro da socioeconomia global. Erradicação do Trabalho Escravo, já!