O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu (C) encontra com simpatizantes do Likud no mercado Mahane Yehuda de Jerusalém, em 22 de março de 2021 | AFP

Israel realiza nesta terça-feira (23) as quartas eleições em menos de dois anos, com o país dividido a respeito da pergunta que provoca uma estagnação política: o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, julgado por acusações de “corrupção” mas idealizador da campanha de vacinação anticovid, deve permanecer no governo ou sair?

Os locais de votação abriram às 7H00 (2H00 de Brasília) e o processo prosseguirá até 22H00 (17H00 de Brasília). Alguns minutos depois serão divulgadas as primeiras pesquisas de boca de urna.

A favor ou contra “Bibi”? (como é chamado Netanyahu). Esta continua sendo a pergunta inevitável de um folhetim político que parece eterno. Mas para o quarto episódio os atores são diferentes.

O general Benny Gantz, rival de Netanyahu nas três eleições anteriores, muito disputadas, perdeu popularidade depois de anunciar um acordo no ano passado com seu antigo adversário para formar um governo de “emergência” diante da crise de saúde.

Laboratório do mundo

O centrista Yair Lapid em 7 de março de 2021 | AFP

O governo de união nacional implodiu em dezembro e pouco depois Netanyahu iniciou uma intensa campanha de vacinação graças a um acordo com a gigante farmacêutica Pfizer: milhões de doses foram fornecidas ao país em troca de dados dados biomédicos sobre os efeitos da vacina anticovid-19.

De fato Netanyahu, de 71 anos e que passou os últimos 12 no poder, concentrou a campanha eleitoral no sucesso da vacinação em Israel, onde quase 50% da população recebeu as duas doses, o que representa quase dois terços dos eleitores.

Desta vez, os principais rivais de Netanyahu nas urnas são o centrista Yair Lapid, o rebelde Gideon Saar e o líder da direita radical Naftali Bennett, seguidos por uma dezena de partidos que, no sistema proporcional israelense, precisam obter pelo menos 3,25% dos votos para conquistar cadeiras no Parlamento.

As pesquisas mais recentes apontam a liderança do Likud (direita) de Netanyahu com aproximadamente 30 cadeiras das 120 do Parlamento, seguido por Lapid (20). Os partidos de Saar e Bennett obteriam 10 cada.

Para alcançar a maioria de 61 deputados e conseguir formar o governo, Netanyahu espera estabelecer uma aliança com a direita religiosa, mas também, pela primeira vez, com a extrema-direita. Yair Lapid conta com um acordo com partidos de esquerda e do centro, mas também com a direita decepcionada com o primeiro-ministro.

Cercado de seguranças e com a máscara de proteção, Netanyahu visitou de modo surpreendente na segunda-feira o mercado central de Mahane Yehuda em Jerusalém, onde foi aplaudido por simpatizantes.

“Só nos faltam duas cadeiras para formar o governo”, disse. “Votem no Likud”.

 “Bye Bye Bibi”?

Apesar da vacinação e da reabertura do comércio, os partidos não conseguiram organizar grandes comícios e a campanha aconteceu sobretudo nas redes sociais. Cada formação se esforçou para convencer sua base de superar o “cansaço eleitoral”, após três votações.

O primeiro-ministro espera obter os benefícios da vacinação e a oposição espera tirar proveito do julgamento de Netanyahu por “corrupção”, “fraude” e “abuso de poder”, que começou há alguns meses e que alimenta um movimento de protestos a cada sábado no país, há 39 semanas.

No sábado à noite, milhares de pessoas se reuniram em Jerusalém aos gritos de “Yalla (vamos) saia Bibi” ou “Bye Bye Bibi”.

Nas últimas três eleições, o líder do partido nacionalista laico Israel Beitenu, Avigdor Lieberman, se negou a declarar se aceitaria uma coalizão pró ou anti-Netanyahu, mas desta vez é Naftali Bennett quem parece ter o poder de fazer a balança inclinar para algum lado.

Seu apoio poderia permitir que um grupo alcance a maioria de 61 deputados.

Bennett não revelou suas intenções: ele critica a gestão de Netanyahu e, ao mesmo tempo, se mostra próximo a sua ideologia.

No domingo, Bennett assinou uma declaração que garante que não integrará um governo de Lapid, mas sem assegurar apoio a um governo com Netanyahu.

Naftali Bennett poderia acabar pedindo conselhos a Benny Gantz que, há um ano, formou uma coalizão com Netanyahu, mas pagou um alto preço político.

AFP