Venezuelanos comemoram o anúncio do Status de Proteção Temporária (TPS) pelo presidente Joe Biden em Miami, Flórida, 9 de março de 2021 | AFP

Venezuelanos em Miami comemoraram nesta terça-feira (9) o alívio migratório do governo do presidente americano, Joe Biden, uma medida que foi como “um copo de água fresca” para os imigrantes de uma comunidade que, no entanto, apoiou em sua maioria o ex-presidente Donald Trump.

O Status de Proteção Temporária (TPS, na sigla em inglês) anunciado na segunda-feira protege da deportação mais de 300.000 venezuelanos que já estão nos Estados Unidos, além de lhes permitir trabalhar legalmente e viajar ao exterior com uma autorização.

Interrompendo as aulas particulares de tênis que oferece em Miami, o venezuelano Pablo Rojas disse que a notícia era “uma maravilha” para ele.

“Qualquer coisa que sirva para estar mais confortável, de verdade é como um copo de água fresca”, comentou o esportista de 30 anos, que chegou a Miami há um, fugindo da catástrofe econômica e humanitária que abala seu país.

Mais a oeste de Miami, em El Doral – apelidada de Doralzuela por sua numerosa população venezuelana – cerca de 20 pessoas se reuniram para comemorar a medida no icônico restaurante El Arepazo, agitando bandeiras tricolores e exibindo cartazes com a frase “Obrigado, Joe Biden”.

Um deles era Eleazar Guevara, membro do grupo Venezuelanos por Biden. Para ele, com a medida o governo expressa “que na Venezuela há uma ditadura”.

O TPS “reconhece que na Venezuela há violação dos direitos humanos”, disse Guevara, de 40 anos, exilado político do partido Vontade Popular.

Um funcionário do governo disse a jornalistas que o decreto estará em vigor por 18 meses devido às “extraordinárias circunstâncias temporárias”.

“Recebemos a notícia com muita alegria e agradecimento”, disse à AFP José Colina, presidente da Organização de Venezuelanos Perseguidos Políticos no Exílio (Veppex).

Dissipando incertezas

O venezuelano Elezar Guevara exibe um cartaz agradecendo aos democratas Joe Biden e Kamala Harris, presidente e vice americanos, durante entrevista com a AFP enquanto comemora a aprovação do Status de Proteção Temporária (TPS) em Miami, Flórida, 9 de março de 2021 | AFP

O TPS foi uma promessa de campanha de Biden que, embora tenha sido reiterada em várias ocasiões, não repercutiu nos eleitores venezuelanos de Miami, que em sua grande maioria apoiaram a reeleição de Trump.

Durante a campanha eleitoral no ano passado, a bem sucedida estratégia de Trump na Flórida consistiu em convencer as comunidades hispânicas de que seu adversário, Biden, levaria os Estados Unidos por um caminho similar ao de Cuba e Venezuela.

O venezuelano Elezar Guevara exibe um cartaz agradecendo aos democratas Joe Biden e Kamala Harris, presidente e vice americanos, durante entrevista com a AFP enquanto comemora a aprovação do Status de Proteção Temporária (TPS) em Miami, Flórida, 9 de março de 2021

Muitos venezuelanos temiam, então, que um governo democrata se reconciliasse com o presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

Embora a campanha democrata negasse estas afirmações e prometesse um TPS para os venezuelanos, o discurso de Trump convenceu os hispânicos conservadores da Flórida e o ex-presidente venceu com folga as eleições no estado, embora tenha perdido a Presidência.

Uma pesquisa divulgada na semana passada pelo grupo de especialistas do Atlantic Council revelou que 65% dos venezuelanos e cubanos da Flórida votaram em Trump em novembro.

“Os venezuelanos que achavam [que Biden] seria prejudicial para sua causa não mudaram muito de parecer porque a maioria é de pessoas que são residentes ou cidadãos e mantêm a mesma postura”, comentou Colina.

“Mas, para quem estava em um limbo migratório, para quem estava sem documentos e para quem tinha dúvidas, isto ver dissipar incertezas”, prosseguiu o ex-militar.

A medida deixa claro, explicou, que Biden “não vai reconhecer Nicolás Maduro, que era o que muitos temíamos, e vai continuar apoiando a causa da Venezuela”.

De fato, em janeiro, o novo secretário de Estado, Antony Blinken, chamou Maduro de “ditador brutal” e disse que apoiava continuar reconhecendo o opositor Juan Guaidó como presidente interino.

A Venezuela vive uma grave crise econômica e é alvo de denúncias de violações dos direitos humanos, uma situação que levou 5,4 milhões de pessoas a fugirem do seu país, segundo cifras da ONU.

Segundo um estudo de 2019 do Pew Research Center, em 2017 moravam nos Estados Unidos 421.000 venezuelanos, 352% a mais do que em 2000. Mais da metade está na Flórida.

AFP