Apaixonado pela bicicleta desde pequeno, em 2015 ele passou a se interessar em usá-la como uma alternativa para uma mobilidade mais livre, autossuficiente e independente | Foto: Leonardo Maia

Mais sustentável e prático, a bicicleta é um meio de transporte que tem se tornado bastante popular nas grandes cidades brasileiras. Em Fortaleza, com a implementação de políticas públicas  como o Bicicletar e o aumento do número de ciclo faixas, pedalar se tornou uma opção bastante incentivada. Mais do que usar esse modal como um simples meio de locomoção e lazer, existem pessoas que fazem dele a sua ferramenta de trabalho. Com suas histórias, dia a dias e esperanças, os entregadores de aplicativo têm se fundido à paisagem urbana.

É sobre esses profissionais que trata o documentário ‘Entregues  – Uma História de Resistência’, apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do jornalista Leonardo Maia, recém-formado pela Universidade Federal do Ceará (UFC).  A obra  mostra a  relação dos entregadores de aplicativo, que veem na bicicleta uma saída para o desemprego, com a cidade de Fortaleza. Com cenas filmadas durante a pandemia do coronavírus, os entrevistados falam sobre os desafios da profissão, suas rotinas e motivação por dias  melhores. 

Paixão pela bicicleta, luta por uma mobilidade democrática

A abordagem do tema  vem do desejo de Leonardo em contribuir com uma mobilidade urbana mais democrática. Apaixonado pela bicicleta desde pequeno, em 2015 ele passou a se interessar em usá-la como uma alternativa para uma mobilidade mais livre, autossuficiente e independente. Com a retomada do hábito, veio a vontade de ampliar a noção desse âmbito de locomoção na cidade.  “Eu consegui entender a importância de você trabalhar para que a mobilidade seja sustentável, democrática e boa para todos, principalmente para as pessoas mais vulneráveis no trânsito, os pedestres, os ciclistas e as pessoas que utilizam o transporte público”, conta Leo. 

Na universidade, ele pôde aprofundar seus conhecimentos sobre o ‘universo em duas rodas’, principalmente no que diz respeito  às questões trabalhistas .  “É muito comum a gente ver ciclistas com mochilas [bags] nas costas, nas grandes avenidas, nas grandes cidades e de como isso tem sido uma alternativa para o desemprego – talvez não a melhor, mas muita gente tem usado isso para compensar”, relata ele.  O resultado pode ser assistido no documentário ‘Entregues’, um trabalho que consegue ser tocante e humanizado ao mesmo tempo que é  didático, técnico e alinhado às reivindicações desses profissionais por condições de trabalho melhores. 

“É muito comum a gente ver ciclistas com mochilas [bags] nas costas, nas grandes avenidas, nas grandes cidades e de como isso tem sido uma alternativa para o desemprego – talvez não a melhor, mas muita gente tem usado isso para compensar”, conta Leonardo | Foto: Leonardo Maia

Entrevista Exclusiva

Em entrevista exclusiva à Siará News, Leonardo Maia fala sobre o processo de produção do documentário, a escolha do tema, sua pesquisa, os desafios impostos pela pandemia e a relação com a ideia de uma mobilidade urbana mais democrática. Confira:

 

 

Leonardo Maia é um jornalista recém-formado pela Universidade Federal do Ceará com passagem pelo jornal O Povo. Sonha com uma cidade em que a mobilidade se torne mais sustentável e ativa, especialmente com o aumento do uso da bicicleta. Apaixonado pela comunicação, faz dessa uma forma de chamar atenção e lutar pelas coisas que acredita.

 

Siará News: Léo, conta pra gente: sobre o que é o ‘Entregues’?
Leonardo Maia: O Entregues é um documentário que eu apresentei  agora em outubro, como o Trabalho de Conclusão de Curso da UFC. Ele fala sobre a questão dos trabalhadores ciclistas, que usam a bicicleta como uma  ferramenta de trabalho, para fazer entregas, vender algum produto, um alimento, enfim…que trabalham por meio da bicicleta. Isso está muito na esteira da ascensão dos aplicativos de entrega que a gente vê hoj –  Ifood, Rappi, Uber Eats… -, que têm trazido à tona essa discussão da relação dessas pessoas que trabalham nesses aplicativos e não possuem um vínculo empregatício.  Como é que isso funciona? Como é a vida dessas pessoas em relação a esse tipo de trabalho? Uma boa parte foi gravada durante a pandemia, então ele também fala de como eles reagiram a tudo isso, uma vez que eles foram uma das classes mais afetadas.

SN: Fala um pouco da sua relação com a mobilidade urbana.
Leonardo: Meu interesse pela mobilidade urbana começou no fim de 2015, mais ou menos quando eu tava concluindo o Ensino Médio.  Eu tinha muita vontade de voltar a andar de bicicleta – eu costumava andar quando era criança mas fui perdendo o hábito com o tempo. Com a instalação do Bicicletar, que é o sistema de bicicletas compartilhadas de Fortaleza, eu pude retomar esse hábito e usar a bike como meu principal meio de transporte. A partir disso eu consegui entender a importância de você trabalhar para que a mobilidade seja sustentável, democrática e boa para todos, principalmente para as pessoas mais vulneráveis no trânsito, os pedestres, os ciclistas, as pessoas que utilizam o transporte público. Pensar a mobilidade para essas pessoas, para que elas possam se deslocar pela cidade de uma forma justa,  para que elas não tenham menos acesso a certos lugares porque não tem um carro.  

. “Eu consegui entender a importância de você trabalhar para que a mobilidade seja sustentável, democrática e boa para todos, principalmente para as pessoas mais vulneráveis no trânsito, os pedestres, os ciclistas e as pessoas que utilizam o transporte público” | Foto: Leonardo Maia

SN: Como você disse, o documentário foi apresentado como parte do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Você sempre teve em mente que faria um material audiovisual? Como foi esse processo de identificação, decisão e escolha?
Leonardo: Nos primeiros semestres do curso, eu já tinha essa noção de fazer uma coisa que pudesse dialogar com todo mundo, que eu pudesse mostrar pra basicamente qualquer pessoa e ela entender o meu trabalho, se informar, ter acesso aquele tipo de material.
De alguma forma a monografia consegue fazer isso,  mas não servia tanto ao meu interesse de ser essa coisa mais ampla. Acho que a parte da pesquisa fica muito dentro da academia e esse não era tanto meu objetivo.  A  partir disso eu fui identificando os temas que eu mais gostava de trabalhar, tentando casar eles com os formatos e eu cheguei a esse produto final, que fala de mobilidade urbana, especificamente sobre a bicicleta, um elemento muito importante na minha vida, até para o que eu sou hoje. Eu achei que isso casava com a linguagem de documentário. A  minha experiência no curso, tanto com as cadeiras como em  projetos de extensão como o Gruppe (Grupo de Práticas e Estudos em Jornalismo Audiovisual) , por exemplo, me ajudaram  a desenvolver as competências no audiovisual e me encorajaram a  encarar esse desafio.
Sobre o tema: a mobilidade urbana e a maneira como a gente se desloca na cidade, estão diretamente ligados com os conceitos de mobilidade ativa, sustentável, da bicicleta e a linguagem visual. Eu passei a gostar muito de tudo isso  durante o curso e também consegui praticar e criar habilidades de produção, edição, roteiro… tudo isso foi muito importante para o que eu desenvolvi. 

SN: O ‘Entregues’ traz uma abordagem muito atual para a conjuntura que a gente vive hoje, principalmente com a pandemia e os novos riscos que os profissionais de aplicativo começaram a enfrentar. A respeito da temática: ela foi a mesma desde o começo?
Leonardo:
No início eu pensei em  fazer uma série documental na qual eu falaria sobre os  os diversos aspectos da bicicleta de uma forma mais ampla. Eu pensava em falar sobre as questões de transporte, de trabalho, de lazer, esporte…enfim, aspectos diferentes que envolvem esse modal. Mas eu fui afunilando, tentando ter um olhar mais específico. Eu achei que falar de uma coisa só entre as várias poderia me permitir ter uma visão mais crítica, melhor construída, então eu resolvi falar das relações de trabalho que estão muito em voga com a  ascensão dos aplicativos.  É muito comum a gente ver ciclistas com mochilas [bags] nas costas, nas grandes avenidas, nas grandes cidades e de como isso tem sido uma alternativa para o desemprego – talvez não a melhor, mas muita gente tem usado isso para compensar. Então eu decidi adotar essa visão pra falar das relações de emprego com a bicicleta. Ao longo da produção,  veio a pandemia. 

SN: Quais as adaptações que você precisou fazer, Leonardo?
Leonardo: Eu tive que mudar muita coisa do que eu tava planejando. Eu até falo que não faria sentido fazer um documentário sobre pessoas que trabalham com a bicicleta em 2020 e não trazer a pandemia como uma protagonista. Eu puxei pra esse lado, como as pessoas tiveram suas rotinas alteradas, como elas tiveram que começar a tomar cuidados extras e de como isso culminou no aumento do risco do trabalho. Então eu resolvi  “costurar” o material que eu já tinha gravado antes com as coisas que surgiram,  que ganharam mais destaque  em relação aos problemas que já existiam. 

SN: Uma coisa que faz do documentário tão sensível e humanizado são os relatos das fontes.  Como foi esse processo de pesquisa e relação com os entrevistados?
Leonardo: O processo de pesquisa com os entrevistados foi a parte que eu diria que foi um pouco mais complicada. Eu saí muitas vezes para acompanhar a rotina das pessoas, conversar com elas e entender como elas trabalhavam ali, se elas queriam participar do documentário.  Eu acho que é muito isso,  você está aberto para as pessoas, conversar com cada um , entender a história e ter essa consciência de que elas são as protagonistas do documentário. Mesmo que a gente saiba que o  audiovisual não retrata fielmente a realidade,  só de você está ali capturando ela, interagindo, você está de alguma forma modificando o que está acontecendo, né? Mas é inevitável dizer que essa é nossa pretensão. Mesmo que seja impossível, é coletar as histórias como elas são.  A  gente não tem intenção nenhuma de inventar qualquer coisa.
A parte de conversa, de entender o que as pessoas fazem e qual a história delas, eu diria que foi a parte mais desafiadora porque, por exemplo, um dos personagens tinha uma história bem diferente do que estava na minha cabeça. Aos poucos eu fui entendendo que aquilo também era uma coisa que estava inserida na realidade. Um deles foi  o Luís Castro, que é  ex-presidiário e  conta como a atuação dos aplicativos mudou a vida dele e   falava muito da questão da religiosidade. Na primeira conversa, eu fiquei pensando se isso não desviaria do meu foco mas … não, ao passar do documentário eu fui percebendo que aquela também era uma história real, uma história de como a pessoa se agarra a uma coisa. Não necessariamente ela está destoando da parte da bicicleta, do ciclismo. São duas coisas que interagem diretamente. Eu acho que, ter essa cabeça aberta para essas experiências, receber até o que a gente não espera, ter essa preocupação à primeira vista é muito importante. 

SN: Como o ‘Entregues’ mudou a sua forma de ver a relação da bicicleta com a cidade? Você chegou a mostrar o documentário para algum dos entrevistados?
Leonardo: Eu tô tentando me aproximar mais da Ciclovida, que é a Associação  de Ciclistas Urbanos aqui de Fortaleza. Até pra minha banca de TCC eu chamei uma pessoa de lá para avaliar e dar sua visão sobre o produto. Eu também tô participando de um grupo que luta pelas pessoas que usam a bicicleta no dia a dia. Eu acho que essa bandeira é algo que também me pertence e eu tô tentando chegar mais perto. Eu ainda pretendo mostrar o ‘Entregues’  para os entrevistados também porque, afinal, se não fosse por eles esse produto não existiria. Mas eu pretendo fazer isso pessoalmente, para  ver o que eles têm a contribuir, a falar sobre aquilo que eu fiz, como eu ilustrei a história deles, então eu tô esperando um pouquinho mais – não sei se vai ser possível esperar tanto pela pandemia mas eu quero muito ver a reação deles. Eu acho que isso vai ser fundamental para crescer como jornalista, como um profissional, para produções futuras. 

SN: A gente sabe que pra chegar a um resultado final tão magnífico foram várias etapas de pré-produção, entrevistas, captação de som e imagem, edição etc. Em quais dessas etapas você se sentiu mais desafiado e por quê?
Leonardo: Essas várias partes desafiam de forma diferentes. Costurar um roteiro, definir a forma como cada entrevista se liga, onde entra cada imagem de apoio, onde colocar dados estatísticos, onde deve entrar uma trilha sonora, onde ficar só o efeito sonoro, o ruído, é bem particular de cada uma. Mesmo assim, pra mim foi especificamente a apuração, a coleta de fontes, quem eu iria entrevistar, de que forma eu chegaria até elas…isso foi muito desafiador  porque, de certa forma, quando você pensa em um entregador de aplicativo, por exemplo, ainda é uma posição de vulnerabilidade na sociedade. Não é todo mundo que gostaria que a mãe ou os amigos próximos soubessem que ele é entregador. Infelizmente não é uma posição que a gente ver com prestígio, digamos assim, então acho que essa foi a principal dificuldade.  Conversar com as pessoas e perceber que elas não necessariamente queriam compartilhar suas histórias exatamente por conta desse medo. Entender isso foi um processo de aprendizado, de ter essa noção que eu preciso respeitar as histórias das pessoas, permitir que elas falem, as que querem falar e, ao mesmo tempo, não colocar elas em uma posição negativa.  

SN: Para encerrar, Léo: teve uma situação específica que despertou seu interesse por mobilidade e como você passou a enxergar o tema após a jornada de produção do ‘Entregues’?
Eu acho que não teve uma situação específica que me fez pensar mobilidade de uma maneira diferente, mas a implementação do Bicicletar foi muito importante para que eu pudesse voltar a andar de bicicleta, começar a repensar a forma como eu me deslocava na cidade, essa questão da liberdade, de poder criar o meu próprio trajeto, ser independente em relação à rota de ônibus, sem precisar de alguém pra dirigir pra mim ou um lugar pra estacionar. Depois de fazer o ‘Entregues’ eu pude refletir ainda mais sobre isso, principalmente com a pesquisa sobre a parte trabalhista , na qual a bicicleta surge como uma ferramenta de trabalho  e que as oportunidades para essas pessoas também devem ser igualitárias. Além disso, a gente pode pensar: entregas curtas, 5 km, 4 km,  são mais sustentáveis para a cidade se elas forem feitas de bicicleta. Eu falei com alguns especialistas para fazer o documentário e é realmente muito interessante, em relação à quantidade de trânsito que isso gera, de poluição, risco à vida etc. Se você faz uma entrega em uma bicicleta é muito mais saudável para todos os envolvidos do que se ela for feita por moto, principalmente quando as distâncias forem curtas. Então eu realmente consegui ampliar a minha visão sobre como a mobilidade importa na vida das pessoas e como tudo isso vai muito além do transporte. 

O documentário ‘Entregues: Uma História de Resistência’ pode ser assistido no YouTube pelo link:  https://www.youtube.com/watch?v=F07wnkpCbgI