O principal funcionário do governo dos Estados Unidos encarregado do controle de fronteiras se demitiu do cargo nesta terça-feira, depois de ter estourado uma polêmica sobre o tratamento oferecido a crianças imigrantes detidas na divisa com o México. Segundo a imprensa americana, John Sanders abandonará suas funções nas próximas semanas. Mark Morgan , o diretor interino do Serviço de Imigração e Controle Alfandegário que pressionou por batidas para deportar famílias, vai comandar o Escritório de Alfândega e Proteção Fronteiriça.

Dias atrás veio à tona que crianças imigrantes detidas nos Estados Unidos eram mantidas em péssimas condições . Segundo advogados que visitaram as instalações na cidade de Clint, no Texas, centenas de menores estavam havia várias semanas detidas no abrigo  sem acesso a chuveiros, roupas limpas e mesmo sem receber alimentação suficiente. O caso provocou forte reação pública e a realocação de 250 crianças na última segunda-feira, ficando 30 no local.

Mas a notícia da demissão de Sanders só veio pouco depois de funcionários revelarem nesta terça que mais de cem crianças foram enviadas de volta para o centro em Clint. Em entrevista, entretanto, um funcionário do Escritório de Alfândega e Proteção Fronteiriça negou as acusações, dizendo que as crianças mantidas na instalação tinham  acesso regular a chuveiros e recebiam lanches regularmente durante o dia.

Sanders liderava a agência desde abril, quando o presidente Donald Trump reorganizou os escritórios de imigração. Os dois jornais que publicaram detalhes sobre a sua saída, o New York Times e o Axios, atribuíram a demissão ao escândalo sobre as instalações de Clint.

As condições das instalações que recebem imigrantes ao longo da fronteira com o México têm sido alvo de crescente preocupação das autoridades, que alertam que o grande fluxo de chegada de famílias estrangeiras levou os locais para além de sua capacidade.

Crianças sem cuidados

A  Estação da Patrulha de Fronteira do Texas mantinha cerca de 300 menores de idade em condições inadequadas de higiene ou alimentar e sem adultos para cuidar deles, de acordo com advogados que visitaram o local. Crianças com apenas 7 ou 8 anos, muitas vestindo roupas sujas,  tomavam conta de outras mais novas . Bebês estavam sem fraldas. A maioria dos detidos não podia tomar banho ou lavar as roupas. As crianças também não tinham acesso a escovas de dentes, pasta ou sabão.

Segundo Elora Mukherjee, diretora da Clínica para Direito dos Imigrantes da Escola de Direito da Universidade de Columbia, uma das advogadas que visitaram a instalação, havia forte mau cheiro  e a maioria das crianças não tomava banho desde que cruzaram a fronteira. Muitas tinham fome.

Além disso, elas haviam sido separadas de parentes adultos com os quais haviam entrado nos EUA. Elas não deveriam permanecer mais do que 72 horas no local, mas algumas estavam havia semanas.

Uma investigadora do Human Rights Watch (HRW), Clara Long, contou ter visto um “menino de 3 anos, com os cabelos emaranhados, tosse seca, calças imundas e olhos que fechavam de cansaço”. O garoto, que tinha cruzado a fronteira com um irmão de 11 anos e um tio de 18, estava detido há três semanas. Separado do tio maior de idade, estava aos cuidados do irmão mais velho.

Agentes na Guatemala

O governador do Texas, Greg Abbott, anunciou na sexta-feira a mobilização de mil soldados da Guarda Nacional na fronteira para ajudar a receber a contínua onda de imigrantes, que ele diz ter chegado a mais de 45 mil pessoas de 52 países apenas nas últimas três semanas.

Além disso, o Departamento de Segurança Nacional dos EUA enviará 89 agentes à Guatemala até o fim de agosto para frear a imigração de indocumentados e fortalecer a segurança na fronteira, de acordo com documento ao qual a agência Reuters teve acesso nesta terça. O acordo entre os dois países prevê o compartilhamento de informações, práticas e experiências.

No início deste mês, o México concordou em impor controles de migração mais rigorosos, incluindo o envio de policiais militares para suas fronteiras, enquanto Trump ameaçava aumentar as tarifas sobre as importações.

Fonte: OGLOBO
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