(Arquivo) A banda de reggaeton cubana Gente de Zona no 2019 iHeartRadio Festa Latina | AFP

Uma canção de protesto incisiva de rappers cubanos viralizada nas redes sociais desencadeou uma resposta oficial indignada em Havana e polariza o conflito cultural sobre a situação em Cuba.

A música “Patria y Vida” (“Pátria e Vida”), que se aproxima de dois milhões de visualizações no Youtube em uma semana, é considerada uma provocação pelo governo socialista.

 

Granma, o principal jornal do país, disse em uma matéria que é uma “interferência política grosseira” na soberania nacional.

A música desencadeou uma resposta do presidente Miguel Díaz-Canel e reações de quase toda a classe política, jornais e noticiários oficiais da ilha.

A canção também divide as redes sociais, onde muitos viralizam a versão “Pátria e Vida” enquanto outros mantiveram seu apego à histórica “Pátria ou Morte”.

Gravado em Havana e Miami, no vídeo participam da Flórida a dupla de sucesso Gente de Zona, os cantores Descemer Bueno e Yotuel Romero – do grupo Orishas -, e em Cuba os rappers Maykel Osorbo e El Funky.

Com refrões de crítica contra o governo, a música proclama que “o povo se cansou de continuar aguentando”. E que espera “um novo amanhecer”.

Desvia do histórico slogan da revolução cubana, “Pátria ou Morte”, marcado por Fidel Castro em 1960.

O vídeo também alude a ícones nacionais como José Martí e ao mais recente e dissidente Movimento San Isidro, com imagens da manifestação de cerca de 300 artistas independentes em 27 de novembro em Havana.

Pela quarta vez desde que o vídeo estreou, o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, reagiu no Twitter apelando a outros artistas cubanos como um contra-ataque.

“Sua canção provocadora não me assusta, nem me preocupa; sei que enquanto o sol forte da dignidade raiar, aqui ninguém se rende, Socialismo, Pátria ou Morte”, diz uma estrofe de Tomasa Quial, uma popular poeta elogiada pelo presidente.

Dias antes, o presidente mencionou outro gigante do acervo cultural cubano, Silvio Rodríguez. “Assim se canta à Pátria”, sentenciou o presidente.

A relação entre os criadores e a revolução passou por vários momentos complicados em sua história e nos últimos meses parece ter entrado em outra zona de turbulências.

Segundo María Isabel Alfonso, especialista em cultura cubana do St.Joseph’s College de Nova York, a avassaladora reação do Estado “é uma confirmação de que até agora o governo cubano não foi capaz de adotar uma posição de tolerância sobre as manifestações artísticas que criticam as falhas do modelo atual”.

A canção surge em Cuba em um momento em que as demandas da sociedade civil aumentaram nos últimos meses devido em parte à recente chegada da internet na ilha, popularizada apenas em 2018.

“Acabou”, cantam os rappers. “Depois de 60 anos, bloquearam o dominó”, concluem, usando o emblema do jogo de mesa que é muito popular entre os cubanos. Eles criticam a dolarização da economia em plena crise.

AFP