O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o político de extrema-direita Itamar Itamar Ben Gvir em cartaz eleitoral em Jerusalém | AFP

Itamar Ben Gvir é o herdeiro político de um dos rabinos mais radicais da história de Israel, que defendeu a “expulsão” dos árabes e, após as eleições legislativas da próxima terça-feira (23), pode salvar o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

Indicado 53 vezes, este homem de 44 anos, que polariza a cena política israelense, gaba-se de ter sido absolvido em 46 casos de incitação ao racismo e apoio ao terrorismo. E, por recomendação dos próprios juízes, começou a estudar Direito para preparar a própria defesa – vangloria-se.

Aliado do deputado nacionalista Bezalel Smotrich no “Partido Sionista Religioso”, Ben Gvir pode se tornar deputado pela primeira vez.

Em Israel, onde prevalece a representação proporcional, os partidos devem obter o mínimo de 3,25% dos votos para chegar a Kneset (Parlamento), uma barreira que sua legenda deve alcançar, de acordo com as pesquisas mais recentes. Isso lhe permitiria conquistar quatro das 120 cadeiras da Câmara.

Pacto com Netanyahu

Apesar de perambular no jogo das alianças políticas, Itamar Ben Gvir manteve praticamente intacta sua linha ideológica, inspirada no polêmico rabino Meir Kahane, fundador do partido antiárabe Kach.

Esta formação foi classificada como “terrorista” após o assassinato em 1994 de 29 palestinos em Hebron, na Cisjordânia, crimes cometidos por um de seus discípulos, Baruch Goldstein.

Ben Gvir não hesita em chamar este último de “herói”, defende a expulsão dos árabes e pede a anexação da Cisjordânia, território ocupado por Israel onde vivem 2,8 milhões de palestinos, algo que tem a oposição da maior parte da comunidade internacional.

Se há pouco tempo ele representava uma extrema-direita, com a qual não era bem-visto estabelecer alianças, nos últimos meses a situação mudou. Agora, Netanyahu, que está na mira da Justiça por casos de “corrupção”, tenta obter a maior quantidade de votos que permitam sua permanência no poder.

Analistas afirmam que o primeiro-ministro empurrou os partidos nanicos da direita radical para uma aliança com o Otzma Yehudit (“Poder Judaico”) de Ben Gvir, para que juntos consigam superar a barreira de 3,25% e apoiem uma coalizão de direita após as eleições.

Netanyahu e Ben Gvir não negam a manobra.

“Somente Ben Gvir pode salvar Bibi”, afirmam cartazes eleitorais do partido, utilizando o apelido do primeiro-ministro conservador.

Resta saber o que Ben Gvir poderia receber em troca: um cargo no governo Netanyahu? Este último afirma que não, mas reconhece que ele integraria sua “coalizão”.

Vários membros da direita, incluindo figuras do partido Likud de Netanyahu, como Yuval Steinitz, consideram que seria “impuro” aceitar um político desta linha em um futuro governo.

 “Uma vergonha”

Na oposição, sua possível entrada no Parlamento provocou um clamor.

“Tentar fazer com que Ben Gvir entre na Kneset é uma vergonha”, disse o centrista Yair Lapid.

“Se Netanyahu vencer, formará um governo com (…) Smotrich e Ben Gvir. Será um governo extremista, homofóbico, chauvinista e antidemocrático”, advertiu.

Parte da classe política questiona a conduta de Ben Gvir nas semanas anteriores ao assassinato de Yitzhak Rabin, em 1995.

Em um clima tenso na ocasião, após os acordos de Oslo com os palestinos, o jovem Ben Gvir arrancou o símbolo “Cadillac” do automóvel do primeiro-ministro e disse: “Chegamos até este símbolo. Chegaremos até ele”.

AFP