Detidos liberados acenam em Yangon, Mianmar, em 24 de março de 2021 | AFP

Mais de 600 pessoas detidas desde o o golpe de Estado de 1º de fevereiro, incluindo um fotógrafo da agência de notícias Associated Press (AP), foram libertadas nesta quarta-feira (24) pela junta militar, que mantém incomunicáveis centenas de civis e não cede na violenta repressão.

“Hoje libertamos 360 homens e 268 mulheres da prisão de Insein em Yangon”, declarou um funcionário do centro penitenciário, que pediu anonimato.

Os ex-detentos, muitos deles estudantes que protestaram nas ruas, deixaram a prisão em ônibus. Muitos fizeram o gesto com três dedos da mão levantados, que virou um símbolo de resistência dos manifestantes.

Um fotógrafo birmanês da agência Associated Press, detido no fim de fevereiro quando cobria as manifestações contra a junta militar, também foi liberado nesta quarta-feira.

“Estou em bom estado de saúde”, declarou Thein Zaw. “As acusações foram retiradas”, acrescentou o fotógrafo de 32 anos, que havia sido acusado de “divulgar notícias falsas”.

Apesar das libertações, os generais ainda mantêm muitos civis presos, incluindo líderes políticos, grevistas, ativistas e artistas desde o golpe de Estado que derrubou a ex-chefe de fato do governo, Aung San Suu Kyi, de acordo com a Associação de Ajuda aos Presos Políticos (AAPP).

Suu Kyi, 75 anos, deveria comparecer nesta quarta-feira a uma audiência na justiça, mas a sessão, que aconteceria por videoconferência, foi adiada por falta de conexão com a internet. Os dados móveis e diversas redes de wifi estão cortados há vários dias para isolar o país.

“Foi adiado para 1º de abril”, disse à AFP Khin Maung Zaw, o advogado da ex-chefe de Governo, que ainda não foi autorizado a encontrar a cliente.

“Greve silenciosa”

A quarta-feira foi marcada por uma convocação de “greve silenciosa” e as ruas de Yangon, principal cidade do país, e de Naypyidaw, a capital administrativa, estavam vazias, com a maioria das lojas fechadas.

Em Myeik, sul do país, de maneira simbólica e em uma tentativa de evitar a repressão, filas de bonecas foram posicionadas em várias estradas, com cartazes pequenos que afirmavam: “Precisamos de democracia” e “Desejamos que a mãe Suu esteja bem”.

Os militares, no entanto, que desejam calar os protestos, não hesitam em aumentar a repressão para sufocar as manifestações. Cada vez mais os civis que não participam nos protestos, incluindo mulheres e crianças, são alvos de ataques.

Na terça-feira, Khin Myo Chit, uma menina de sete anos, morreu ao ser atingida por um tiro quando estava em sua casa em Mandalay (centro), segundo a AAPP. Até o momento nenhuma fonte independente confirmou sua morte à AFP.

A ONG Save the Children afirmou que está “horrorizada com fato de que as crianças continuem figurando entre os alvos”. A organização contabiliza 20 menores de idade mortos nas últimas sete semanas.

Um total de 275 civis morreram desde o golpe, de acordo com a AAPP. Mas o número pode ser maior, pois centenas de detidos estão desaparecidos.

“Terroristas violentos”

Na terça-feira, o porta-voz da junta, Zaw Min Tun, anunciou um balanço de 164 vítimas entre os manifestantes, que chamou de “terroristas violentos”.

Ele também afirmou que o governo está decidido a “reprimir a anarquia”, ignorando as novas sanções impostas por Estados Unidos e União Europeia (UE).

A violência continua muito intensa em Mandalay, onde 21 civis morreram desde domingo.

O exército também reforça o cerco judicial a Aung San Suu Kyi, que está detida e incomunicável. Dois homens confessaram em vídeos divulgados por meios de comunicação estatais que pagaram subornos para a ex-líder do governo civil: a quantia seria superior a um milhão de dólares, além de 11 quilos de ouro.

Analistas questionam a autenticidade dos depoimentos porque uma das testemunhas está presa e a outra tem um passado obscuro.

A vencedora do Nobel da Paz de 1991 também recebeu outras quatro acusações, incluindo incitação de distúrbios públicos. Se for considerada culpada, ela pode ser condenada a vários anos de prisão e seria afastada da vida política.

A junta justificou o golpe de Estado ao citar uma “grande fraude” nas eleições legislativas de novembro, vencidas por grande maioria pelo partido de Suu Kyi, a Liga Nacional para a Democracia (LND).

Na terça-feira, a junta repetiu que nas eleições circularam muitas cédulas falsas. Também divulgou vídeos de eleitores que afirmam que foram pagos por representantes da LND.

AFP